icon-arrow

Cadastro finalizado com sucesso.

Sua farmácia já está cadastrada e aguarda aprovação da administração da ABRAFARMA para ser publicada.

Cadastro finalizado com sucesso.

Seu cadastro está finalizado com aprovação da administração da ABRAFARMA.

Cadastro EAD finalizado com sucesso.

Seu cadastro nos cursos livres está finalizado com aprovação da administração da Abrafarma.

Cadastro associado finalizado com sucesso.

Seu cadastro de associado está finalizado e aguarda aprovação da coordenação farmacêutica da sua empresa.

Um em cada dez brasileiros utiliza 5 ou mais medicamentos: bom ou ruim?

Cassyano Correr postou dia 25/03/2018 (atualizado 25 de Março de 2018)


No artigo Polifarmácia: uma realidade na atenção primária do Sistema Único de Saúde, pesquisadores da Faculdade de Farmácia da UFMG e de outras instituições traçam um panorama da polifarmácia no Brasil, reportando resultados de um estudo transversal com mais 8mil pessoas em todo país. Resultados interessantes:

9,4% (praticamente 1 em cada 10) dos brasileiros adultos (acima de 18 anos) utilizam 5 ou mais medicamentos, o que pode ser considerado polifarmácia. Seria algo próximo a 14 milhões de pessoas.

18,1% (praticamente 2 em cada 10) dos idosos com mais de 65 anos utilizam 5 ou mais medicamentos, quase o dobro da média populacional;

Os 5 (cinco) medicamentos mais utilizados por essas pessoas são, em ordem decrescente: sinvastatina, losartana, omeprazol, ácido actilsalicílico e metformina.

Antidepressivos (fluoxetina, amitriptilina) e benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam) aparecem na lista dos 25 medicamentos mais utilizados;

Pessoas que possuem plano de saúde privado tem 1,6 vezes mais chance de usar 5 ou mais medicamentos;

Pessoas que usam 5 ou mais medicamentos tem 2,9 vezes mais chance de relatar uma percepção ruim ou muito ruim de sua própria saúde, 1,6 vezes mais chance de ter sido atendido em um serviço de urgência/emergência nos últimos 12 meses, mas não é possível afirmar que essa associação seja de causa-efeito, considerado o tipo de estudo realizado.

Comentários

O aumento no consumo de medicamentos per capita no Brasil pode ser explicado por vários fatores, entre eles mais facilidade de acesso a medicamentos, envelhecimento da população e aumento importante da prevalência de doenças crônicas, já a partir dos 40 anos de idade.

Mais medicamentos não significa necessariamente melhor saúde, mas também não existe uma relação direta e linear entre polifarmácia e piores desfechos de saúde. Hospitalização nos últimos 12 meses, por exemplo, não foi um desfecho associado à polifarmácia no estudo Brasileiro.

Há certo consenso entre especialistas da área de que o importante não é o número de medicamentos em uso, mas o quanto o tratamento é apropriado, seguro e capaz de produzir as melhorias de saúde esperadas. Há estudos que mostram, inclusive, maior probabilidade de você encontrar a falta de um medicamento necessário em pacientes polimedicados. Alguns explicam esse fenômeno pelo olhar da inércia terapêutica: diante de um paciente que já utiliza vários medicamentos, o médico pode se sentir receoso de prescrever mais um tratamento, mesmo se necessário. E a maioria dos médicos não se sente segura de analisar toda farmacoterapia do paciente, de forma integral.

Por outro lado, é maior a chance de reações adversas e outros problemas relacionados aos medicamentos em pacientes polimedicados. Dificuldades de adesão ao tratamento também tendem a ser maiores nesse grupo. É uma relação evidente: mais medicamentos, mais problemas relacionados a medicamentos. Quando é necessário selecionar pacientes em relação ao risco associado aos medicamentos, portanto, o número de medicamentos é o parâmetro que deve ser observado primeiro.

Olhando para esse cenário maior, no entanto, fica a ideia de que mais importante do que olhar o número de medicamentos, é observar a qualidade de seu uso no contexto clínico particular do paciente, investigando se todas as condições de saúde estão tratadas adequadamente. A essa avaliação estruturada costumamos dar o nome de “revisão da farmacoterapia”.

Fazer revisão da farmacoterapia, no entanto, é uma tarefa muito complexa. Não admira que a maioria dos farmacêuticos, diante de um paciente polimedicado, se restrinja a olhar apenas para alguns aspectos, como adesão ao tratamento, ou resultados de tratamentos específicos, como para diabetes e hipertensão. Da mesma forma que os médicos, a maioria dos farmacêuticos não se sente preparada para conduzir uma análise profunda de toda farmacoterapia do paciente.

A polifarmácia é um fenômeno recente no Brasil e, infelizmente, o sistema de saúde não está preparado para lidar com esse novo paradigma. É cada paciente por si. Os profissionais de saúde, isolados em suas especialidades ou consultórios individuais, tampouco estão preparados para gerenciar toda essa complexidade.

Talvez a resposta possível esteja na colaboração multidisciplinar e na troca de informações entre os profissionais, além de uma participação ativa dos pacientes. Um médico geriatra pode receber informações advindas de um farmacêutico comunitário. Em um ambulatório hospitalar, um farmacêutico clínico poderá discutir problemas com o cardiologista ou psiquiatra, que também prescreveram medicamentos para um paciente em particular. Em instituições de longa permanência ou serviços de atenção primária, todos esses profissionais e o paciente podem conversar a fim de construir um plano terapêutico único, o mais apropriado possível. Num futuro próximo, testes genéticos e clínicos rápidos poderão apoiar uma escolha terapêutica mais individualizada, à beira do leito, na farmácia, no consultório ou na casa das pessoas.

Enquanto isso, na farmácia, o que pode ser feito? Tomar consciência do que envolve a polifarmácia e oferecer serviços que mirem a revisão da medicação, melhoria da adesão ao tratamento e checagem de resultados terapêuticos já são um ótimo início. Vamos torcer para que, com o tempo, todos esses pontos soltos ao redor do sistema de saúde podem se conectar dentro das redes de atenção à saúde e as soluções possam chegar de forma mais eficiente aos milhões de brasileiros.

Referência:

NASCIMENTO, Renata Cristina Rezende Macedo do et al. Polifarmácia: uma realidade na atenção primária do Sistema Único de Saúde. Rev. Saúde Pública [online]. 2017, vol.51, suppl.2 [cited  2018-03-25], 19s. http://www.scielo.br/pdf/rsp/v51s2/pt_0034-8910-rsp-S1518-51-s2-87872017051007136.pdf